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sábado, 18 de agosto de 2012

Fading...



O silêncio era atordoante. As ruas pelas quais passávamos pareciam nunca ter fim. O tempo estava nublado. Meio frio. E as ruas pouco movimentadas. Era tarde de sábado. Três e meia, relógio apontava, para ser exato. O perfume era o mesmo que me encantou semanas atrás, o sorriso tinha o mesmo som e intensidade apaixonante. O olhar de conquistador barato permanecia, mas o joguinho de conquistas havia acabado. A química se desvaneceu.

Meu olhar fixava em todos os cantos da rua através da janela do carro. Meu olhar passava por tudo. Menos por ele. Eu sabia que era o fim, e que minutos depois eu desceria dalí sem tê-lo comigo nas minhas noites chatas de dias de semana. Eu não queria olhar para o lado, eu não queria olhar para o abismo, não queria me tocar que era o fim.

Eu estava sentindo aquelas borboletas no estômago novamente, e era tão gostoso, era tão bom. Havia tanto tempo que não sentia aquela sensação gostosa de “É hoje que eu vou vê-lo!” ou aquela saudade de tudo aquilo que eu não havia vivido. Era diferente. Ele dizia que eu era diferente, mas eu já havia ouvido isso tantas vezes antes, que nem perdia meu tempo em acreditar nessa história de novo. Das duas uma: Ou eu era realmente diferente, ou todos os caras são tão previsíveis ao ponto de falar isso a cada primeiro, segundo, ou terceiro (que seja) encontro.

Mais uma vez eu havia colocado intensidade em uma viagem que não tinha combustível, nem estrada suficiente para chegar ao destino certo. Mais uma vez expus meus sentimentos, minha forma de pensar, mais uma vez me despi sem pudor para nada. Me lembro como se fosse hoje, aquela barba desenhada, sobrancelha grossa, e olhar de quem te devora, e te envolve. Ainda guardo a imagem daquele cara debruçado na janela do motel, fumando, e me admirando enquanto estava deitado encantado com o meu reflexo naquele grande espelho de teto. A luz era pouca no ambiente. Ainda me lembro de tudo.

Meus pensamentos foram interrompidos por um “Precisamos conversar”. Eu, ainda perdido, tentando me situar, aterrissar, me virei, mas mais uma vez a tentativa de mergulhar em seus olhos foi sem sucesso. Concordei com a cabeça, e lancei meu olhar rumo ao nada, ele então me deixou claro em poucas palavras que não acreditava em adaptação, e que era papo para boi dormir, e isso significaria que estávamos dando murros em pontas de facas, e dando cabeçada onde não teria futuro. Estávamos insistindo demais em nós.

Na verdade, eu engoli a seco aquela história, e aquilo me desceu rasgando por dentro, porque no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que era verdade. Mas quando a gente “gosta”, a gente vê  o lado bom até onde não tem. Temos mania de nos torturar, mesmo que seja somente entusiasmo.

Eu tentei, juro que eu tentei fazê-lo desistir de toda aquela ideia maluca, eu tentei dar a volta naquela conversa sem pé e nem cabeça, fazê-lo acreditar que maluco era ele de não achar que poderíamos sim ter algo. Mas essa minha mania de orgulho, misturada com uma vontade de me fechar, me recuar, me frear, não deixou com que as palavras saíssem.

Senti meus olhos queimarem. Não, não é possível. Pensei. Era vontade de chorar? Como assim? Por quê? Era só um casinho, não tinha envolvimento, ou pelo menos não era para ter. Mas teve. O silêncio mais uma vez causou estrondo entre nós. Ele brincava com uma bala halls sabor melancia na boca, entre os dentes, e com a mão na cabeça todo despojado no banco motorista.

Ele tentou se explicar, e resumir tudo que havia acontecido, em “Espero que permaneça amizade”. Revirei meus olhos, e lembrei me de tudo aquilo que havia escrito a respeito de amizade pós tentativa frustrada de viver uma história romântica, e tudo o que eu penso a respeito. Fixei meu olhar, e pisquei disfarçando a vontade enorme de me derramar, agarrá-lo, e dizer: Você está louco. Fica comigo. Eu te quero, cara. É isso. Mas não, falei sem rodeios “Quero ir embora”.

Ele então deu partida no carro. Permanecemos em silêncio. Pedi para que me deixasse na esquina. Ele não aceitou, e me levou mais uma vez até o portão da minha casa. O que havia se tornado um costume. Até ao mesmo portão que ele me esperava minutos, e minutos, sempre que combinávamos de sair. O que se faz nessas horas? Beija, se abraça, se diz coisas legais? Ainda me sinto perdido nessas paradas. Ele me deu um aperto de mão, sua mão estava quente, ou a minha fria, sei lá. Mas foi um aperto. Ele me olhou e disse “Se cuida!”.

Assim como meus personagens de estórias, me encontrei com um sorriso de canto de boca, aquele sorriso desapontado de quem segura um choro. Sai, fechei a porta. E como sempre, olhei para o banco para ver se tinha me esquecido de algo. E como todas as despedidas, ele me esperou abrir o portão, e fechá-lo, para dar partida no carro, mas dessa vez ele ficou esperando até que me perdesse de vista. E sem olhar para trás, eu segui. Eu queria ter olhado, mas a minha vontade de que permanecesse a primeira impressão que tinha à seu respeito era maior.

E a primeira impressão que tive dele parado naquele portão foi na segunda vez que nos encontramos. Que ao sair do carro, ele abaixou o vidro, chamou em voz alta: Rey... Vem cá! Eu fui, e ele disse “Adorei te ver hoje, nem que por dez minutinhos” O meu riso foi tão feliz. E era assim que queria me lembrar sempre de você. Você parado no meu portão me esperando entrar, e piscando os olhos pra mim em seguida. Mas infelizmente, ou felizmente, o que ficou intacto foi o nosso fracasso. E mais uma vez uma desistência, e uma entrega de mão beijada.



Um comentário:

  1. Como sempre, ao ler teus textos, fico assim... perdido em mim, ou será reencontrando alguns saberes já não mais lembrados??? Tanto faz.
    Texto muito, muito bom. E tocante demais, principalmente por se aproximar de algo que vivi há pouco tempo.
    Obrigado mais uma vez por me fazer investir minutos preciosos aqui. :)

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