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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Os marginaizinhos amarrados ao poste!



Atualmente, tenho visto bastante notícias sobre "pessoas" que se deram mal ao tentar um ato criminoso e foram detidos por população. É claro que isso não é um fato recente, até porque sempre aconteceu em diversos lugares do país. Porém, este tema tomou uma certa proporção devido ao adolescente negro que foi amarrado ao poste por um grupo de pessoas que se nomearam "justiceiros".

Depois deste acontecimento, tivemos um video circulando pelas redes sociais com o depoimento de uma repórter do SBT, na qual ela não dizia, na minha opinião, ser a favor do fato em si, e sim totalmente a favor da forma com a qual as pessoas se defenderam de um "marginalzinho" (nome dado à ele em seu video, logo após concluir que o "adolescente negro" tinha passagem pela polícia por assaltos).

Pra quem não sabe e está completamente por fora da situação. Esta foi a fala da reporter após abordar a notícia:

"O marginalzinho amarrado ao poste era tão inocente que em vez de prestar queixa contra seus agressores, preferiu fugir, antes que ele mesmo acabasse preso. É que a ficha do sujeito está mais suja do que pau de galinheiro. Num país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80% de inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível. O Estado é omisso. A polícia, desmoralizada. A Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, é claro! O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite. E aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: façam um favor ao Brasil. Adote um bandido!"


A maioria das pessoas criticaram Rachel Sherazade por falar todas essas palavras sem esboçar nenhuma emoção e com tamanha frieza. Disseram até que a emissora estava apoiando a violência, etc. Diversas opiniões contra e a favor surgiram por todos os lugares. Eu, particularmente, fico completamente chocado com as pessoas que criticam e discordam da atitude que estes brasileiros tiveram ao abordar um criminoso.

Em minha timeline, ao ver alguém postando algo do tipo, mostrando uma opinião sobre os casos dos justiceiros que começaram a se alastrar por aí, revirava os olhos. Eu revirava os olhos porque a maioria das opiniões que eu lia era completamente contra a atitude. Para essas pessosas, nós devemos ficar quietinhos, na nossa, esperando com que o bandido faça o que quiser conosco e ainda ficar de braços cruzados aguardando que a justiça divina (vinda pela polícia e estado) seja feita. O que muitas vezes não acontece. 

Violência gera violência. Adianta bater no bandido? Não. Não adianta bater no bandido. Até porque após o ocorrido, surgiu novamente um noticiário que o mesmo "marginalzinho" fora pego assaltando um casal de turistas em Copacabana (Zona sul, RJ). Talvez a atitude da população, em amarrá-lo pelo pescoço com uma corrente de bicicleta, tenha o revoltado ainda mais. Ou talvez não tenha sido o suficiente, creio eu. 
Pobre coitado. 

"Acho um absurdo" São essas as palavras que eu ouço por algumas pessoas que eu questiono sobre a opinião do caso. Elas acham extremamente desnecessário amarrar um bandido pelo pescoço ao poste. Eu também acharia um absurdo arramarem uma pessoa ao poste, pelo pescoço, SEM NENHUM MOTIVO APARENTE. Acho completamente aterrorisante. É coisa de outro mundo. 

Mas eu pergunto a todos eles:

"Se este garoto tivesse feito algo com você, antes de ser amarrado ao poste, você acharia desnecessário e mesmo assim seria contra o ato dos justiceiros?"

As pessoas pensam por alguns segundos e confirmam com a cabeça rigidamente se mantendo em suas opiniões.

Exagero ainda mais:

"Se este garoto, tivesse assaltado alguém da sua família, o seu pai, por exemplo, e tivesse arrancado a vida dele. Você ainda assim seria contra o ato dos justiceiros?"

O silêncio e a pausa para pensar é ainda maior, mas é só ter um senso e ver nos olhos que opinião formada é coisa na qual algumas pessoas não voltam atrás. Elas confirmam com a cabeça, se mantendo novamente em suas opiniões.

Fico mudo.

Respeito completamente a opinião das pessoas. Até gosto de ouví-las. Juro. Mas isso não quer dizer que eu tenho o direito de aceitá-las ou me permitir pensar igual. Assim também funciona por um outro lado. Não forço ninguém a aceitar as minhas, mas acho que temos que ter ao menos argumentos que justifiquem nossas opiniões. Quando questiono, eu busco por justificativas no intuito de fazer com que as pessoas se enrolem. E eu, logo em seguida, jogue os meus argumentos para fazer com que a pessoa se cale e pense. No minímo vou ouvir coisas que irão certamente acrescentar no meu ponto de vista.

Por que eu estou escrevendo esse texto? 

Você certamente deve estar se perguntando agora. 

Eu estou escrevendo este texto porque hoje vi em um jornal a seguinte notícia "Bandido é preso por população local após assalto". Ao clicar no link, me deparei com um video registrado por testemunhas, na qual mostrou algumas pessoas em volta do bandido que estava amarrado ao chão aguardando a chegada da polícia. Mais ou menos 10, das 30 pessoas, estavam pedindo para que desamarrassem o ladrão. As outras relutavam bravamente agredindo o pobre coitado que, acoado, ficou sem reação. Não é difícil concluir que, nesse "Solta e não solta" houve um tumulto entre essas pessoas e as mesmas começaram a brigar entre si. Umas a favor, e outras conta. Como num julgamento público.

Rapidamente procurei pelo Google outras informações relacionadas ao tema e me deparei com várias, as quais me fizeram tomar um certo nojo da mídia, pela forma como elas abordam certos acontecimentos. Li notícias com os temas:

"Adolescente negro é amarrado pelo pescoço NU em poste."

"População espanca homem amarrado ao poste"

"Jovem é preso ao poste por população"


Nenhuma citando "Bandido é amarrado pelo pescoço, NU, em um poste." Talvez se o tema começasse dessa forma, a visão de algumas pessoas ao clicar pelos links já seriam breviamente formadas.
Meu pai foi assaltado três vezes, e em uma dessas vezes por dois caras que quase tirou a sua vida. Só não tirou porque ao roubar o seu carro, ele se fingiu de morto no meio do mato, porque senão, assassinado seria. Eu e minha família desejamos todos os dias que a justiça fosse feita com esses dois cidadãos, porém também ansiavamos pela morte dos dois. O que não justifica.

Mas quanta hipocrisia de todos vocês. Hoje, voltando do trabalho, pensei com meus botões:

"Quando Alexandre Nardoni jogou a tal garotinha da janela de um prédio, todo mundo desejou a morte do cara de uma forma bruta. As palavras e anseios da população foi assustadora. O mesmo aconteceu com os assassinos que arrastaram o João Hélio por não sei lá quantos kilômetros por aí. E agora estão protegendo um criminoso que roubou um celular, e sabe-se lá quantas coisas a mais não deve ter passado a mão por aí."

Me pergunto. O que difere Alexandres nardonis "da vida" dos marginaizinhos amarrados aos postes por aí? Ambos cometeram crimes, claro que não na mesma proporção, mas o suficiente para colocarmos os dois no mesmo patamar. Ah, já sei, um jogou uma criança pela janela e o outro roubou somente um celular.

Matar é roubar, e roubar é matar. Tudo igual, sem distinção. 

É contraditório pensar que vocês protegem "ladrão" e julgam "assassinos", mas é que pimenta no olho dos outros é refresco. 

Conselho, quando pingar no teu, e arder, talvez o discurso seja outro.



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