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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

São Paulo



Se você ainda não gosta de São Paulo é porque ainda está olhando pra ela de longe, da janela tripla e plástica de um avião. São Paulo não foi feita pra ser vista de cima. Pra gostar daqui tem que descer pra ver de perto. Tem que parar pra ver de dentro. Em São Paulo cada amigo é que é o seu monumento, sua pracinha, a sua praia. E quando um deles vai embora, a sua cidade fica completamente bombardeada, dilacerada, absolutamente apocalíptica.

São Paulo é bom depois que você aprende.  E não é assim com qualquer idioma? São Paulo é uma língua. Tem que entender os substantivos, saber os verbos, decorar a conjugação.

E São Paulo é língua áspera, língua de gato. Vai lamber e te arranha.
Não é um carinho, não baba, não sobra boba pra fora do lábio.
É só útil.

Cuidado: por ser língua ela te engole, te leva pra úvula. Tem hora que tudo que se vê pela frente é um túnel feio e escuro que nem traquéia, um trânsito embrulhado de tubo digestivo. Língua de sogra: barulhenta e insuportável.

Tem dia, pode ver, que São Paulo é ardido que nem afta.

Uma língua que não enrola: toda conversa aqui é séria, da boca pra dentro.

Mas acalma que ela te beija também, a saliva te cura, é antibiótica.
Dá com ela nos dentes e milagre - você é poliglota.

São Paulo não faz sentido - é sentido:
Outros lugares você encosta,
alguns países a gente assiste que nem filme,
tem continentes que são música
e já soube de ruas com cheiro de pitanga.

Mas só São Paulo é um músculo voluntário e vermelho dentro da sua boca.

Aqui nem é cidade, é papila: ácida, salgada, amarga no fundo.

Mas a pontinha, só a pontinha, repara - é doce que só.




SEIS MÚSICAS PARA ANDAR POR SÃO PAULO

1. Ás vezes - Tulipa Ruiz
2. City Grrrl - CSS
3. Move in the Right Direction - The Gossip
4. Civilization - Justice
5. New in Town - Little Boots
6. Nightwalker - Thiago Pethit


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