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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Assim como eu, há muitas outras pessoas que precisam.


Nesse último final de semana, penduraram nas grades do parque Trianon uma placa escrito “PEGUE OU DEIXE”. A placa possuía alguns cabides pendurados com algumas roupas e no chão, alguns sapatos.

Hoje pela tarde separei algumas roupas que não me serviam mais e as coloquei em uma bolsa, e planejei pendurá-las nos cabides antes de ir à academia. Abri a janela para sentir o clima, e ventava frio. Busquei em uma pilha de casacos o meu favorito, vesti, e desci para treinar.

Parando em frente ao parque Trianon, coloquei a bolsa ao chão, e comecei a retirar as roupas da sacola e pendurá-las em cabides. Um morador de rua se aproximou lentamente de mim e perguntou:

- Hei, essas roupas são para dar? – Questionou ele, com olhar assutado.

- Sim. Você quer?


- Tem algum casaco aí? – Perguntou ele, olhando dentro da bolsa com olhar curioso.

- Não. – Fiz cara de desapontamento, estava realmente muito frio. – Mas tem essa camisa aqui que é meio grossa, dá para aquecer. – completei retirando uma outra camisa da bolsa.

Ele estendeu a mão e eu o entreguei. De repente, peguei todas as roupas, coloquei na bolsa e disse:

- Leva tudo!

Ele escolheu uma e respondeu:

- Não. Obrigado! Vamos pendurar aqui! Assim como eu, há muitas outras pessoas que precisam.

Essa frase me rasgou por inteiro. Eu esperava que ele pegasse todas as roupas e ficasse feliz, mas simplesmente me espantou pensando nas outras pessoas que poderiam estar na mesma situação que ele, precisando de algo para vestir.

Nós penduramos as roupas juntos. Me virei, continuei andando. Estava muito frio, e eu não parava de pensar nas palavras que eu havia escutado. Tão humano. Eu me senti estranho. Foi pior do que perder todos os meus amores. Eu não entendi a sensação até perceber que eu havia me colocado no lugar de outra pessoa. Parei, antes de atravessar, dei meia volta, e andei em sua direção. Retirei meu casaco, estendi a mão, e entreguei a ele.

- Mas e você? – Perguntou ele.

- Assim como eu, há muitas outras pessoas que precisam.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

São Paulo



Se você ainda não gosta de São Paulo é porque ainda está olhando pra ela de longe, da janela tripla e plástica de um avião. São Paulo não foi feita pra ser vista de cima. Pra gostar daqui tem que descer pra ver de perto. Tem que parar pra ver de dentro. Em São Paulo cada amigo é que é o seu monumento, sua pracinha, a sua praia. E quando um deles vai embora, a sua cidade fica completamente bombardeada, dilacerada, absolutamente apocalíptica.

São Paulo é bom depois que você aprende.  E não é assim com qualquer idioma? São Paulo é uma língua. Tem que entender os substantivos, saber os verbos, decorar a conjugação.

E São Paulo é língua áspera, língua de gato. Vai lamber e te arranha.
Não é um carinho, não baba, não sobra boba pra fora do lábio.
É só útil.

Cuidado: por ser língua ela te engole, te leva pra úvula. Tem hora que tudo que se vê pela frente é um túnel feio e escuro que nem traquéia, um trânsito embrulhado de tubo digestivo. Língua de sogra: barulhenta e insuportável.

Tem dia, pode ver, que São Paulo é ardido que nem afta.

Uma língua que não enrola: toda conversa aqui é séria, da boca pra dentro.

Mas acalma que ela te beija também, a saliva te cura, é antibiótica.
Dá com ela nos dentes e milagre - você é poliglota.

São Paulo não faz sentido - é sentido:
Outros lugares você encosta,
alguns países a gente assiste que nem filme,
tem continentes que são música
e já soube de ruas com cheiro de pitanga.

Mas só São Paulo é um músculo voluntário e vermelho dentro da sua boca.

Aqui nem é cidade, é papila: ácida, salgada, amarga no fundo.

Mas a pontinha, só a pontinha, repara - é doce que só.




SEIS MÚSICAS PARA ANDAR POR SÃO PAULO

1. Ás vezes - Tulipa Ruiz
2. City Grrrl - CSS
3. Move in the Right Direction - The Gossip
4. Civilization - Justice
5. New in Town - Little Boots
6. Nightwalker - Thiago Pethit


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