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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Meu primeiro beijo em um garoto (Como eu contei para a minha amiga Sandra)

Após uma boa e longa conversa com uma amiga, no final de semana, sobre a inocência de um primeiro beijo, decidi escrever sobre o meu. Ao começar a ler o texto, tenha paciência, sobretudo tempo. Pegue pipoca, pois é uma boa e longa história...



Eu tinha 15 anos quando conheci Felipe. Felipe era 2 anos mais velho que eu, e consequentemente 2 anos a minha frente no colégio. Nos conhecemos na era do Orkut (bons tempos) e começamos a trocar scraps até que começamos a nos encontrar todos os dias, no final da aula, na praça matriz de minha cidade natal.

A inocência e pureza de nossa amizade deu abertura para um sentimento até então desconhecido por nós. Felipe e eu começamos a nos falar cada vez mais e nos encontrar todos os dias, cresceu uma amizade até então diferente, não sabia definir com precisão o que eu sentia, a única coisa que eu sabia era que eu não gostava do Felipe somente como amigo. Havia um sentimento maior.

Após algumas semanas de amor platônico, exausto com a situação toda, Felipe pediu para conversar conversar comigo e disse para que eu o esperasse no final da aula, como de costume. Pessoalmente, ele não conseguiu me dizer o que de fato tinha a me dizer, e eu nem se quer me dava conta do que seria. Mas eu também tinha algo a lhe dizer, mas também tinha medo de que isso fizesse com que eu perdesse a sua amizade.

Na época não tinhamos a facilidade de comunicação que um smartphone nos proporciona nos dias de hoje, tampouco um wifi decente ou até mesmo uma banda larga que à disposição. Em 2005, ainda usávamos internet discada. Naquela época, a nossa geração esperava arduamente pelas 00h para que pudessem acessar ao mundo virtual. Nosso meio de comunicação era o MSN messenger (Versão BETA 7.0 – QUE NOSTALGIA) e a rede social, já falecida, Orkut.

Numa quinta-feira à noite, Felipe pediu para que eu entrasse no MSN para que pudéssemos conversar. Era coisa séria. Eu, aflito, entrei. Seu caracter era “Arial – tamanho 12” em cor verde. O meu, verdana, 14, azul marinho. Até disso eu me recordo.

- Preciso lhe dizer uma coisa. – Disse ele.
- Pode falar. – Respondi.
- Mas eu estou com medo de falar e você não querer mais me ver.
- Duvido que isso vá acontecer.
- Eu gosto de você. – Respondeu, sem rodeios.
- Eu também gosto de você, você é meu amigo. – Respondi na inocência.
- Mas eu gosto mais.
- Mais?
- Mais que um amigo. Gosto como namorado.

Aquelas palavras me rasgaram por inteiro de felicidade e eu me encontrei em choque sem saber o que falar ou o que fazer. A única coisa que consegui fazer foi me levantar, subir na cama, pular loucamente, segurando um travesseiro contra o rosto, gritando de felicidade, feito uma adolescente ridícula de filme americano. Quando terminei o show, voltei ao computador.

- Você está aí? Fala comigo. - Era ele.
- Acho que temos algo em comum. Eu também gosto de você.
- E agora, o que a gente faz?
- Eu não sei. Sugestão?
- Vamos começar mudando o status de relacionamento do Orkut.

Sem nos importarmos com os amigos em comum do colégio, nós alteramos, ao mesmo tempo, o status de relacionamento para “Namorando”. Chega a ser engraçado a forma como lidamos com isso naquela época, mas no dia seguinte quando as pessoas me perguntavam eu dizia que havia colocado atoa, mas como sempre, as pessoas intrigadas começaram a procurar saber mais e mais.

A melhor amiga dele, Lais, logo desconfiou e começou a questioná-lo sobre a amizade dele comigo. Minha melhor amiga Sandra, também começou a me questionar sobre o nível de amizade que eu tinha com Felipe. Elas estavam cumprindo arduamente o papel de melhores amigas. A melhor parte é que eu e Felipe haviamos começado a namorar sem ao menos nos beijar, e já havia se passado duas semanas que nos viamos todos os dias e nem se quer nos beijávamos. Era uma coisa tão pura, inocente, e boa que dispensava os toques de malícia.

Um belo dia, ao sair do curso de inglês, fui-me encontrar com Felipe na mesma praça na qual sempre nos viamos no fim da aula. Chegando por lá, conversamos um pouco e ele disse que queria me beijar e que não conseguia mais ficar sem me tocar, aceitando a situação, mas sem saber onde isso poderia ocorrer naquele momento, sugeri que procurássemos um lugar para que pudéssemos nos beijar. Ele aceitou. Após algumas voltas pelo quarteirão, decidimos nos encostar em algum lugar afastado para deixar acontecer o tão esperado beijo.

Meu primeiro beijo, em um garoto, aconteceu encostado em um portão de garagem no caminho do Colégio João Belo de Oliveira. Foi um beijo rápido, não durou mais que 5 minutos, até porque na nossa cabeça estávamos fazendo algo extremamente errado e que ninguém poderia nos ver naquele momento. Eram 6h da tarde e já estava escurecendo, então não havia nenhum perigo. Ao nos despedirmos fui embora feliz e contente, foi o melhor dia da minha vida, eu havia beijado o meu namorado. Era uma coisa tão minha, uma coisa tão única, eu estava louco para contar para alguém, mas ninguém sabia de mim e eu não tinha para quem contar. Foi super horrível guardar um dos momentos mais felizes da minha adolescência só para mim. Não sabendo eu que o meu segredo só duraria uma noite.

No dia seguinte, eu estava ansioso para ir para o colégio e encontrar Felipe no fim da aula. Meu pai sempre disse que eu precisava chegar cedo no colégio, então sempre me levava de carro às 6h30 quando minha aula começava às 7h15. Neste dia, justo neste dia, houve um imprevisto no qual eu cheguei às 7h30.

Foi eu pisar no pátio para ouvir os burburinhos pelos cantos. Todo mundo estava comentando de mim e cochicando me acompanhando com o olhar. O que eu havia feito? Continuei meu percurso até a sala e ainda assim pude ouvir comentários com meu nome, mas ainda não tinha identificado a raiz do “problema”. Sandra sempre sentava na primeira mesa, e eu na segunda. Quando eu cheguei ela juntou a sua mesa à minha e me perguntou em tom baixo sobre o Felipe.

- Você vê o Felipe todos os dias?
- Não. – Menti, sem saber o por que de ela estar me perguntando aquilo.

Ela engoliu seco e teve a certeza de que eu havia mentido.

- É verdade o que estão falando de você? – Questionou ela novamente.
- O que estão falando?
- Disseram que você beijou o Felipe.

Eu entrei em choque. Como alguém havia descoberto, se também o Felipe não havia contado para ninguém? Que estranho. Pensei.

- Que loucura. O felipe é meu amigo.
- Mas é o que estão falando. Falaram que vocês se beijaram, ontem, no portão da casa da Jéssica.

Claro. A casa da Jéssica. Como eu pude me esquecer? Jéssica é aquela “vadia” que todo mundo tem o prazer de conhecer no colegial. Aquela X9 puxa saco de professor que é burra feito uma porta e fracassa em todas as provas e acha que sendo amiguinha dos professores consegue ser salva de repetir de ano. Aquela garota que provoca todo mundo com comentários maldosos que constragem e debocha e ri de tudo ironicamente e em tom alto sendo escandalosa e exageradamente ridícula por se achar a última bolacha do pacote.

Sentiram o meu ódio ao descrevê-la né?! Pois bem, Jéssica havia espalhado para o colégio todo que eu havia beijado Felipe.

- Ela viu? – Perguntei, após entrar em transe.
- Ela quem contou pra todo mundo.

Fiz cara de triste.

- Se isso não é verdade por que te chateia tanto? – Perguntou Sandra.
- Porque o Felipe é meu amigo. – respondi, disfarçando.
- Você precisa se afastar dele para que esses rumores sobre você parem.
- Não vou deixar de andar com alguém só por causa desses boatos ridículos. – Fui grosseiro.
- Calma. – Pediu ela. – Eu só quero poder ajudar. Sou sua amiga.

Pelos corredores, eu via Sandra comprando a minha briga e gritando com o mundo que aquilo não era verdade. Enquanto eu me escondia, ela tentava apagar um incêndio causado por mim, sozinha. Eu via Sandra desmentir pessoas próximas a ela e presenciei algumas pessoas a chamando de protetora, puxa-saco, e apaixonada por veadinho. Não achei justo como ela estava sendo tratada só por me proteger e acabei me afastando dela para que pudesse, de alguma forma, protegê-la.

Perdi  a minha melhor amiga, fiquei com fama de gay no colégio, e terminei na cama, de bruço, com a cabeça enterrada no travesseiro, chorando como se o mundo fosse acabar, ouvindo “Big Girls Dont Cry – Fergie” – que na época estava em alta. – após Felipe terminar comigo, do nada. Eu chorei tanto, acho que nunca havia chorado tanto na minha vida.

Meus dias, após um namoro que me durou 36 dias, se tornaram tristes. Eu não queria encontrar Felipe pelas ruas, com medo do que pudesse acontecer. Eu tremia da cabeça aos pés, meu coração disparava e com ele me vinha uma vontade louca de chorar. E eu não podia desabafar, pois nem meus pais sabiam de mim. Todos os dias que eu chegava no colégio, eu sentia ódio de todas aquelas pessoas que contribuiram de alguma forma para que aquele fato se espalhasse. Eu não conseguia ouvir um riso se quer da Jéssica sem me imaginar arrastando-a pelo cabelo nos corredores do colégio.

Após algumas semanas, numa aula de Química, me levantei para beber água, pedindo encarecidamente à professora para que eu pudesse me ausentar da sala. No bebedouro do colégio, haviam copos descartáveis, e sempre que alguém saia da sala, os alunos pediam para que o colega trouxesse água. Após a permissão da professora Marina, me levantei e caminhei até a porta, quando a abri, Jéssica – com uma voz irritante – perguntou se eu podia trazer água para ela. Por um segundo me peguei parado na entrada sem saber o que falar. Como ela podia? Após tudo aquilo, me pedir para trazer água? Me virei, a olhei nos olhos, e respondi com um sorriso: Gelada ou misturada?

Misturada. Respondeu ela.

Como eu disse acima, nós não tinhamos a praticidade que um smartphone nos proporciona hoje. Sendo assim, peguei meu celular “Samsung – SGH (alguma coisa)” que fazia videos de 30 segundos no máximo, nos permitindo fazer pausas durante a filmagem, e comecei a filmar meu trajeto pelo corredor.

Começou no bebedouro. Pausando o video durante o percurso, peguei um copo descartável, fui ao banheiro, mijeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei riiiiiiiiiiiiiiiiiiiiios e peguei o copo descartável, enchendo-o até a metade, depois voltei no bebedouro e coloquei a outra metade de água gelada. Cheirei. Hmmmm... Ok. Pensei. Faltando 5 segundos para finalizar o vídeo, deixei o celular em pausa, subi para a sala e entreguei o copo à Jéssica. Sentei no meu lugar, e finalizei com 5 segundos ela matando a sede.

A primeira pessoa que viu o vídeo foi a garota mais zueira da sala que começou a gargalhar sem parar. Curiosos, o restante da sala quis ver o que estava no meu celular, então, aproveitando o que a tecnologia da época nos proporcionava , transferia o video para a primeira pessoa por Bluetooth, que transferiu para a segunda, e assim sucessivamente. Todos riam da Jéssica, e ela assim como eu, não conseguia entender o que havia acontecido, até que ela viu o video.

Todo esse acontecimento me rendeu uma manhã na secretaria e 2 semanas de encontro com a piscóloga do colégio, Tais. Como se o problemático fosse eu, após ter dado um beijo gay. Odeio todas essas pessoas até hoje.

Para concluir, briguei com a minha melhor amiga, dei o meu beijo em um garoto, fui feliz por alguns dias, chorei ouvindo Big Girls Dont Cry após ele me dar um pé na bunda, e dei meu mijo pra Jéssica tomar. Quer desfecho melhor para uma vadia-fofoqueira-infeliz-pau no cu?

E eu não sei se interessa vocês, mas Sandra ainda é a minha melhor amiga, e após todo o acontecimento, sentamos, no dia da ceia do natal (naquele ano) e eu contei a ela toda a verdade. Que eu namorava o Felipe e que eu era Gay. Minha amizade com ela, desde então, se tornou muito mais forte e verdadeira. E esse só foi o início de longas e boas histórias que temos à contar. E eu espero que Jéssica tenha me perdoado, afinal, chumbo trocado não dói.






2 comentários:

  1. Adorei a historia. Consegui me identificar com partes do seu texto! Sei como e lidar com todos esses sentimentos ao msm tempo: amor, felicidade, paixao, tristeza, odio...

    Duas perguntas:
    1. E o Felipe? Perderam o contato? Nao se viram.mais? Pararam msm de se falar?

    2. Ainda tem o video da Jessica? Poste pra assistirmos.... Kkkkkkkkkk..

    Belissimo texto, adorei!! ;)

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  2. Como é que pode ser poc assim? Vou buscar minha lâmpada!

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